Reseñas

  • Barros, Manoel de. Escritos em verbal de ave
  • Verbal writings of birds

Resumen

Barros, Manoel de. Escritos em verbal de ave. São Paulo: Leya, 2011. 16 pp.

Abstract

Barros, Manoel de. Escritos em verbal de ave. São Paulo: Leya, 2011. 16 pp.

REVISTA CHILENA DE LITERATURA
Noviembre 2012, Número 82, 282- 283

 

III. RESEÑAS

 

Barros, Manoel de. Escritos em verbal de ave.
Sao Paulo: Leya, 2011. 16 pp.

Desenho da voz
na areia
é verbal de ave.
Manoel de Barros

 

Delicadeza, espanto, leveza, palavra e imagem poderiam ser as cinco palavras iniciais para a primeira impressao de leitura do novo livro de Manoel de Barros intitulado Escritos em verbal de ave, lanjado recentemente pela editora Leya.

Primeiramente, a delicadeza e a beleza reforjam a relajao texto-imagem, visualidade e desenho na estrutura do livro composto de quatorze páginas dobradas em cruz para formarem um mosaico. Desse jogo delicado e estético nao ficam de fora a cor alaranjada, o tamanho, a textura e o encanto do origami que seduzem qualquer leitor sensível. Esta estrutura dobrada e dobrável, espécie de livro-brinquedo, articula-se com a poética de Manoel de Barros principalmente no que diz respeito a uma poesia de brincadeira linguística e interajao criativa.

Se por um lado o livro-objeto já é um jogo visual e criativo, a poesia, por outro, tematiza a infancia como reduto da espontaneidade, das relajoes da palavra com a confecjao do brinquedo, como certo recurso metalinguístico e sutil de preparar surpresas ou espantos. O que este livro e o lirismo de Manoel de Barros sugerem para o leitor é o desejo de exercer a liberdade de animar a matéria sem preocupajao de explicá-la. Nele o perfil do sujeito-crianca personifica ou metaforiza o papel de revelar a riqueza e as variacoes das imagens. Este sujeito -representado na figura de Bernardo nesta obra- se resguarda no escudo da ingenuidade reforjando uma percepjao inventiva que procura o tempo inteiro saciar a curiosidade.

Além do título -Escritos em verbal de ave e da epígrafe inicial "A infancia/ E a camada/ Fértil da vida", de Nicolas Behr- os desenhos surreais da contracapa e os do próprio poeta confirmam o efeito de maravilhamento validado pelo sujeito-crianca.

Do acervo de Bernardo, intitulado "Os Desobjetos" além dos intratextos com os livros infantis O Fazedor de Amanhecer e Exercícios de ser crianga percebemos uma lista de outros treze elementos que surgem como de um baú ou memória tátil enaltecendo os objetos pequenos que podem surgir na mao ou mesmo servirem de instrumento de trabalho: "martelo", "guindaste de levantar vento", "o parafuso de veludo", "presilha", "alicate", "peneira", "besouro", "água" e o "rolete". Todos eles compoem, delicadamente, o arsenal reflexivo e poético de Bernardo.

O teor léxico e lúdico da enunciajao deixa clara a brincadeira linguística, o esconder-se, expor em nu o que está "profundamente" vestido: "uma desbiografia: Bernardo morava de/ luxúria com as suas palavras"; "Bernardo sempre nos parecía que/ morava nos inícios do mundo". A partir disso, podemos dizer que a poesia barreana é um desenho: Bernardo e os jogos infantis vao-se desnudando em um plano ótico diante do leitor-espelho e provocando reajoes do espajo. A infancia, nessa perspectiva, também é mediada pelo olho do emissor. Sao trajos de paisagens, lirismos, decorajoes com sabor: festa das palavras, dos bichos, sensorialidade apontadas para preencher o movimento tecido da memória. Ela - a infancia - também é a medida de uma vestimenta de brincadeiras que o circunda, na busca afetiva da alteridade na natureza, na obsessao metonímica e delicada que limita o olhar, no processo de contraste entre o oculto e o exibido.

Ao livro todo em aberto, com o desenho de um menino em posijao de mergulho, aparecem os fragmentos poéticos em tom claro da folha. Os vários tercetos, nesta folha maior -agora aberta para quem quiser ver/fruir- surgem em enigmas do estilo poético-aforismático, impressao digital da escrita fragmentária de Manoel de Barros. Entre o desenho, as dobraduras e o estilo à deriva dos fragmentos, a palavra passa pela transmutajao da escrita para a imagem. Os balbucios, entre cintilajoes e desenhos, da história de Bernardo foram apagados para deixarem surgir, em tempo certo de madureza, nódulos de pensamento, tensos de sentidos, mansos de sabedoria nutritiva dos fragmentos.

A passagem da história de Bernardo a dos pensamentos/fragmentos que abrem o volume como um todo na dobradura, aos conceitos de poesia ou do ato de escrever, segue um curso natural quanto o de um menino que deságua no mar dos fragmentos. Afinal, a palavra nao tem limites, ela é o próprio mar. É, também, a festa do mergulho, daquele que flui na esperanca da unidade, à revelia do pensamento, da vida e da morte.

No interstício entre as palavras e o mergulho, entre um e outro, surge um diferente modo de espiar a poesia e, mais ainda, a poesia como espreita -quase fricjao física do mergulho e palavra, corpo e escrita, vida e poesia. E, ao mesmo tempo, exuberancia, subjetividade, imagem -memória de carícia plena, inscrita no corpo- e vòo, leveza, mergulho, descoberta.

Apesar de Bernardo remeter-se ao mundo da floresta (e a uma tradicao literária brasileira bucólia), de fazer um "ferro de engomar gelo", de fazer das palavras brinquedo ou de ver uma "borboleta emocionada de pedra", de possuir singularidades e ligajao com a natureza, ele, também, questiona o discurso urbano do mundo globalizado, consumista e que nao respeita ambientes naturais. Esse olhar transgressor da poesia barreana é, ao mesmo tempo, performático, pois estabelece uma posieao teatral diante da vida e de temas atuais, enfatizando aspectos da infancia, da memória e da escrita. Vasculha o paradeiro do personagem assemelhando-o com os dos animais e das plantas com uma visao que se pretende infantil e, aparentemente, despreocupada.

Esses recursos confirmam que a poesia para Manoel de Barros é transgressao da lei, gozo do dizer, utopia da completude. A mais perfeita resolujao da vinganja perversa da língua contra si mesma. Isso nao é segredo para ele, o que sabe, porque joga entre signos. Desse jogo, cumpre um recenseamento para sugerir a exuberancia das inutilidades do mundo. Nada escapa das analogias, tudo é motivo para recriar sentidos com elementos heterogéneos e isolados.

Escritos em verbal de ave -como o próprio paratexto sugere é palavra para vòo, mergulho, errància, ócio e reflexao. De certo modo, Bernardo -o personagem desse livro lembra outro poeta que Manoel de Barros alude: Rimbaud- o poeta francés que abolia fronteiras e buscava a liberdade da poesia, do poeta e do leitor para a descoberta.

Rodrigo da Costa Araújo

Universidade Federal Fluminense
rodricoara@uol.com.br